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Artigo: Quando o futuro chegar…
Publicado originalmente na edição nº 3045 do Boletim AASP – 1ª quinzena de setembro de 2017.
Por Juliana Vieira dos Santos,
A maioria de nós que nasceu antes dos anos 1980 viu os supercomputadores do tamanho de prédios encolherem para artefatos que cabem nos nossos bolsos. Esses artefatos passaram de simples telefones para apêndices cognitivos que complementam nossas memórias e nos ajudam a solucionar problemas, reduzir distâncias, transpor barreiras.
Mas a ciência não parou por aí. Vem desbravando as fronteiras do possível para limites inimagináveis.
Dogmas vêm sendo questionados: a interface cérebro e máquina a partir de sensores que devolvem o sentido táctil a pessoas com lesões de medula já é uma realidade. Paradigmas sociais vêm sendo quebrados: a carne artificial, que já está sendo elaborada em laboratórios, promete revolucionar a indústria alimentícia. A efemeridade na nova era nos fará questionar o inquestionável: as impressoras 3-D têm o potencial de revolucionar nossa relação com o direito de propriedade, na medida em que os átomos poderão ser transformados e retransformados em qualquer coisa que se queira. A interface entre cérebros de dois ratos em continentes distintos abre as portas para uma internet cerebral que mostra que as possibilidades são incríveis e vão muito além do que o carro autodirigido…
As mudanças nesta nova era são exponenciais. E nenhum mercado passará ileso. Nem o dos advogados.
O exercício do Direito nessa era pós-digital envolverá muito mais do que a presença nas redes sociais, digitalização de processos, arquivos em nuvem, softwares de desempenho…
Em 2013, pesquisadores da Universidade de Oxford fizeram um estudo sobre o futuro do trabalho e concluíram que uma a cada duas profissões tem alto risco de ser substituída por um robô.
O machine learning, o braço mais poderoso da inteligência artificial, é a tecnologia responsável por essa disrupção. Ela permite que a máquina aprenda com um número grande de informações e imite algumas coisas que os humanos conseguem fazer.
Diversas pesquisas vêm demonstrando que não temos qualquer condição de competir com os robôs em tarefas frequentes e volumosas. Os robôs já corrigem trabalhos de faculdade, diagnosticam doenças, auditam contas públicas. Detectam padrões em documentos. Elaboram contratos e petições.
É certo, portanto, que boa parte do mercado jurídico será tomada por robôs.
Mas, as máquinas não estão se saindo bem em situações inéditas. De fato, o que a inteligência artificial não consegue analisar (e essa é a limitação fundamental do machine learning) são situações novas. As limitações dos robôs é que eles precisam partir de um número grande de dados de um mesmo assunto para “aprender”. Nós, humanos, não. Nós temos a habilidade de conectar fios soltos a partir de insights e resolver problemas nunca antes vistos.
Isso traz, ao menos por enquanto, um limite fundamental a quais tarefas humanas serão automatizadas por robôs: só sobreviverá às máquinas aquele que tiver a cada dia um novo desafio. E também aqueles que conseguirem criar novos processos de trabalho a partir dessa tecnologia.
Mas o maior desafio não é o interesse corporativo de como vamos manter nossa profissão.
O desafio fundamental será entender como, e se, o Direito sobreviverá como ponto de inflexão para o novo paradigma social e econômico que vem por aí, considerando que a revolução científica e digital vai subverter o mundo da forma como conhecemos.
E, para entender isso, nós, advogados, já estamos atrasados, pois o futuro já começou.
Juliana Vieira dos Santos é advogada e conselheira da AASP.
O artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a posição da entidade.